Inspirados nos *ongaku kissa*, cafés musicais nascidos no Japão nos anos 1920, os primeiros estabelecimentos nesse formato surgiram no país a partir do entusiasmo pela cultura ocidental e passaram por diferentes transformações ao longo dos anos, ganhando força especialmente no período pós-guerra.
Com a economia do país fragilizada, os vinis importados eram extremamente caros e escassos. Assim, salas de estar coletivas passaram a reunir jovens interessados em ouvir os sons mais recentes vindos do Ocidente. Os cafés mais populares eram os de jazz, impulsionados pelas pilhas de discos que os soldados americanos levaram consigo ao Japão.
Imagine entrar em uma biblioteca onde o que menos se espera é o som do silêncio.
Essa talvez seja uma das definições mais simples ao olhar qualquer foto do Lion Café, criado em 1926 e em funcionamento até hoje.

Lion Café, Shibuya, Tóquio.
A qualidade da reprodução sonora se tornou um dos elementos mais importantes dessa experiência. Além da busca por reduzir reverberações, estática e ruídos, esses ambientes foram criados com a proposta de transformar a música gravada no elemento principal da experiência. O termo “alta fidelidade” (*hi-fi*caminhava lado a lado com a música e, nos anos 1980, tornou-se um dos principais diferenciais competitivos utilizados pelas marcas: a promessa de reproduzir, dentro de casa, a sensação de uma apresentação ao vivo.


O planejamento das salas coletivas vai além dos equipamentos sob medida e mobiliário, para alcançar o equilíbrio na distribuição do som, os projetos também buscam elementos que criam uma acústica balanceada como camadas de materiais naturais, painéis de cortiça, couro, tecidos, carpetes e reboco de argila.

L'Atelier Sonore Valentino, Nova York.
No Brasil, os termos “hi-fi” e “listening bar” estão cada vez mais presentes na vida noturna contemporânea de São Paulo. Desde 2023, o formato vem se popularizando cada vez mais, refletindo uma transformação cultural mais ampla na forma como diferentes grupos sociais procuram ocupar a cidade e se relacionar socialmente, abrindo espaço para que cada um deles consiga explorar as suas próprias formas de conexão.
Alinhada à experiência social, além da carta de drinks clássicos e autorais, alguns espaços como o Formosa Hi-fi criam audições de novos álbuns, sessões de “escuta ativa”, nas quais as músicas, os DJs, os vinis e as caixas de som ocupam o centro das atenções.
A proposta é conduzir a energia do público por meio da vibração do som e vice-versa, respondendo também às mudanças nos hábitos de consumo musical. Alguns espaços, como Domo, o Conselheiro e o Terraço Notiê, conciliam o conceito à gastronomia e a transformam em uma das protagonistas da experiência.
Conselheiro, São Paulo

Starlane e Matiz, São Paulo
Já o Iccarus e o Starlane abriram mais espaço para a pista de dança e seguiram uma linha “club". Dentro dessa proposta, além do investimento em estrutura e equipamentos, algumas casas, como Matiz e Hi-Fi Community — o mais novo deles — se destacam pelo investimento em curadoria artística, convidando DJs locais e estrangeiros com grande qualidade técnica e longos anos de pesquisa em vinil.

Por Gabriel "CACO" Lira