MC Hariel, Xuxa Levy e Nave Beatz se unem para o Red Bull Symphonic Brasil

Um dos principais projetos musicais da RedBull está prestes a desembarcar no Brasil.

O anúncio ocorreu nesta terça-feira, 26/05, em uma coletiva de imprensa apresentada pela pesquisadora e especialista em cultura funk no Brasil, Renata Prado, diretamente do QG da marca.

 

“O Red Bull Symphonic é um projeto que desafia artistas contemporâneos a criarem algo novo, reinterpretando suas músicas através de um novo olhar, mostrando versatilidade e criatividade por meio de composições inéditas”, disse Renata.

O projeto, que em versões anteriores já uniu artistas como Metro Boomin e Rick Ross a orquestras sinfônicas, agora apresenta o funk paulista de MC Hariel ao lado de uma orquestra escolhida a dedo e regida pelo maestro Xuxa Levy, além dos samplers e direção musical de Nave Beatz, responsável por criar a ponte entre a música clássica e o funk em um espetáculo inédito.

“A gente quer criar uma experiência em que a música sinfônica se mistura ao funk paulista, se tornando uma coisa só. Apelidamos carinhosamente de ‘orquestra de fluxo’, que nasce justamente dessa mistura entre os instrumentos, os beats e a energia do baile. Um projeto como esse é muito importante para levar a música sinfônica e o funk a novos públicos e, de certa forma, desmistificar alguns estigmas que as pessoas têm sobre esses gêneros musicais. Será uma construção feita com respeito e carinho por ambas as culturas”, afirma Xuxa Levy.

“O sinfônico e o orquestral estão realmente se fundindo com o funk. Se vocês forem ver os outros Red Bull Symphonic pelo mundo, eu garanto que o nosso vai ser completamente diferente de tudo o que já foi feito. Estou muito empolgado!”, disse Nave Beatz.

Símbolos e representatividade

Desde suas raízes nos anos 1990, os MCs já rimavam citando marcas — seja como forma de identificação, diferenciação ou até mesmo para ditar tendências dentro dos bailes. A letra de “Montagem da Cyclone”, da equipe carioca Furacão 2000, dizia: “andamos de Cyclone da cabeça ao pé”.

Em São Paulo, essa relação se fortaleceu ainda mais com o surgimento do funk ostentação. Marcas de luxo como Gucci e Louis Vuitton passaram a ocupar lugar central nas letras. Outras marcas, como Nike e Oakley, também estreitaram essa relação ao trazer MCs e DJs para perto, transformando artistas em embaixadores, como aconteceu com MC Hariel em 2023, ao se tornar embaixador da Lacoste no Brasil.

“É muito importante lembrar que a Red Bull é uma marca que historicamente dialoga com a cultura funk. Pra quem está acostumado a ouvir funk, com certeza já ouviu músicas falando muito sobre Red Bull”, comentou Renata Prado.

Além da moda, a Red Bull foi uma das marcas mais presentes nas letras e nos bailes funk pelo Brasil, especialmente em São Paulo. Em “Olha o Kit Part. 3”, MC Dede canta:

“Gelo, whisky e Red Bull na banca não pode faltar...”

Já na faixa “Vida Diferenciada”, de 2015, dos MCs Léo da Baixada e Pedrinho, a bebida também aparece como símbolo de celebração e ascensão social.

“Traz uísque e Red Bull pra comemorar, deixa ela se divertir, viver e ostentar”. 

Durante a coletiva, os músicos também falaram sobre a importância simbólica do projeto para a cena musical e sobre o impacto de uma marca historicamente presente nos bailes promover esse encontro entre orquestra e funk.

“É um símbolo que demonstra pra gente uma certa potência. A gente vê uma força nesse símbolo. Poder estar lado a lado com esse símbolo hoje mostra que tudo o que a gente faz tem uma força gigante e que estamos no caminho certo”, afirmou Raridade.

A música clássica e o funk

Para quem não acompanha de perto a Música Periférica Brasileira, talvez, em um primeiro momento, seja difícil enxergar uma ligação direta entre o funk e a música clássica — ou até imaginar que esses universos possam coexistir.

Mas essa aproximação não é exatamente nova. Em “Montagem do Cartão Magnético”, segunda faixa do álbum Boladona, lançado em 2004 por Tati Quebra Barraco, a produção de DJ Marlboro utiliza uma introdução de violinos originalmente criada pelo músico e arranjador Billy Meyers para a faixa Papa Don't Preach, de Madonna. 

Talvez influenciado pelos desenhos animados e pela cultura pop, MC Livinho faz, na música “Mulher Kama Sutra”, uma interpretação da composição In the Hall of the Mountain King, do compositor norueguês Edvard Grieg.

A famosa “flautinha” de Bum Bum Tam Tam, de MC Fioti,  que viralizou durante a pandemia, foi extraída da composição Partita em Lá Menor para Flauta Solo, escrita por Johann Sebastian Bach no século XVIII.

Por vez, na música “Violino Subverso” o dj e produtor Gian Palermo, conhecido no submundo, como GP da ZL, usa um sample de violino da música tema do personagem Homelander em The Boys.

O GP também produziu outras faixas com referências ainda mais evidentes à música clássica, como é o caso de “Orquestra Subverso”.

Os dois gêneros já se encontraram diversas vezes dentro da cultura do funk — nos samples, beats e produções, seja por meio de instrumentos, elementos isolados ou até composições completas. No entanto, talvez este seja um dos primeiros momentos em que acontecerá o movimento inverso onde um grande número de produções de funk serão transformadas em música sinfônica de uma só vez.

Seja nas orquestras ou nas rimas do funk, a música carrega uma enorme força como elemento de transformação social.

“O funk tá atrelado a tudo, tá ligado? O funk muda vidas, como mudou a minha e vai mudar a vida de vários menor ainda, tá ligado? Então acho que esse projeto vai mostrar algo inovador musicalmente, vai mostrar a potência de um movimento social”, disse MC Hariel.

O evento acontece em São Paulo, no dia 8 de agosto, na Sala Simón Bolívar, localizada no Memorial da América Latina — espaço projetado por Oscar Niemeyer e idealizado pelo antropólogo Darcy Ribeiro com o objetivo de celebrar a identidade, a integração política e a diversidade criativa dos povos latino-americanos.

“Tem muitos ídolos, muitas pessoas que merecem ser exaltadas, que merecem ter espaço de voz… o funk paulista é muito rico…”, finaliza MC Hariel.

Por Gabriel "CACO" Lira